O Preço do Moralismo ou Como uns Peitinhos a Menos Ajudaram a Matar o Cinema de Autor
Desde os anos 50 até meados dos anos 80, cineastas do mundo inteiro que desejassem fazer os filmes que eles bem entendessem, sem dar satisfação demais aos produtores, lançavam mão de um estratagema infalível: prometer, aos referidos produtores, nudez e sexo na tela. Nem precisava ser muito, o suficiente para povoar um treiler, algumas fotos para o cartaz, um título safado e pronto: filmava-se em paz.
Godard prometeu Bardot pelada para ter a grana para fazer seu O Desprezo em technicolor, por exemplo. E são muitos os exemplos. Nagisa Oshima e seu belíssimo "O Império dos Sentidos". Boa parte dos filmes mais livres de Carlos Reichembach na Boca do Lixo paulistana dos anos 70 e 80 só foram possíveis porque entravam no rol das autofinaciáveis pornochanchadas.
Na Europa, na América do Sul e no Oriente (nos Estados Unidos, menos um pouco), o truque era o mesmo. E os filmes acabavam sendo inconformistas na forma e no sentido. Livres, cinematograficamente, tendiam a ser livres, libertários, sexualmente também. Mas isso importa menos. Pois muitas vezes os filmes mal tratavam de sexo. Podiam ser atormentadas pensatas existencialistas, até. Tornadas possíveis, repito, porque a promessa do erotismo vendia ingressos.
No Japão, felizmente, essa onda durou mais tempo, entrou pelos anos 90 e permitiu florescerem autores radicais e únicos como, por exemplo, Hisayasu Sato. Acabo de ver seu Rafureshia, de 1995. Um filme que começa com um pai fazendo sexo oral na filha, passa por alguns estupros e chega a um final feliz tão burlesco, picaresco até, que poderia estar no filme de Didi, Dedé, Mussum e Zacharias. Um filme irregular, muito ruim e muito bom ao mesmo tempo, mas acima de tudo livre, provocador. Autoral.
Mas o mundo encaretou. O público, especialmente o público jovem (e isso é estatística, não é palpite meu), tem pavor de nudez e sexo no cinema. De onde terá vindo isso? Sei lá. Talvez tenha vindo a reboqueda americanização do mundo. Realmente, não sei. Mas está aí, é real. Um realizador não tem mais a possibilidade de viabilizar financeiramente sua visão cinematográfica do mundo usando o truque dos pelados e das peladas.
O que ficou no lugar? A violência. Garanta brutalidades, mortes, sangue, ação no seu filme, e talvez você consiga chegar perto de fazê-lo. Tarantino fez o nome assim.
Trocou-se o sexo pela porrada. What a wonderful world.



Reader Comments (2)
Sexo oral na filha, não me choca. Mas penso que não deve ter havido muito diálogo na referida cena ;-)
Pensando bem, é curioso que se chame de sexo oral uma prática que o que menos se pode é falar. Acho que o Woody Allen já disse algo parecido.