Maradona, Dunga e os roteiristas
Sexta-feira, Abril 3, 2009 at 09:38AM
David França Mendes

A Argentina toma de seis da Bolívia, Maradona está metendo os pés pelas mãos. Dunga não tomou de seis, mas quem gosta de futebol torce para que isso aconteça logo. Todo mundo esculhamba os dois, e com razão. Ninguém observa o essencial: por que dois caras que nunca treinaram nem escolinha são repentinamente alçados ao que seria o mais alto posto da carreira de técnico de futebol em seus respectivos países? Pelo mesmo motivo pelo qual se acredita que roteiristas estreantes, sem qualquer apoio ou experiência, uma vez ganhando um cachê de profissional serão capazes de escrever grandes roteiros: porque em nossas culturas, a experiência não tem valor e a mística do improviso e do gênio súbito superam a idéia de construção e de consolidação das coisas.

Claro que esse meu comentário reflete, ainda, a discussão em torno do edital do Ministério da Cultura para desenvolvimento de roteiro. Um edital que dá um prêmio bastante considerável (50 mil reais) para projetos de roteiro, com cotas por regiões e para estreantes. Agora, sou contra a regionalização? não. Já dei oficinas em vários lugares do Brasil e sei que há pessoas e histórias muito boas em toda parte. Sou contra premiar estreantes? menos ainda. É preciso ouvir novas vozes, sempre.

O que eu sou contra é a falta de, por um lado, um política de apoio técnico ao desenvolvimento desses estreantes e pessoas de regiões com pouco acesso à instrução específica sobre roteiro, e, por outro lado, a falta de investimento e até quase um descrédito em quem já fez alguma coisa mas precisa, também, avançar, melhorar.

Sem isso, ficam os estreantes jogados no fogo e os mais experientes, desmotivados.

É preciso discernir o que cada um precisa, e o papel de cada um no processo do cinema. É preciso formar para o longo prazo, dar suporte para quem vai fazer as coisas a médio prazo e apoiar quem vai escrever os filmes que serão feitos a curto prazo. É preciso investimente em formação, mais do que prêmios pontuais, e na valorização de quem já faz bem.

Sem isso, é como ir para a Copa do Mundo com técnicos improvisados. Perdidos, ainda que bem intencionados.

Article originally appeared on roteirista e diretor/film writer and director (http://davidfmendes.squarespace.com/).
See website for complete article licensing information.