Ainda a questão dos roteiristas

O normalmente pacato mundo dos roteiristas está em polvorosa desde que o presidente da Associação de Roteiristas (AR), Marcilio Moraes, criticou duramente o edital de roteiro do Ministério da Cultura. Nós, da Autores de Cinema (AC) - entidade que reúne exclusivamente roteiristas profissionais com pelo menos um longa no currículo - sempre tivemos pequenas diferença de visão em relação à AR. Nesse episódio, no entanto, nossas diferenças ficaram mais evidentes.

A principal diferença, me parece, é o foco da AC, que é a profissionalização da atividade via modernização das relações de produção no cinema brasileiro. Em outras palavras, a AC, tal como a entendo, aposta mais em ações (públicas ou não) que favorecem a infraestrutura, a normatização dos procedimentos e a criação de um fluxo de produção que inclua o desenvolvimento de projetos e roteiros, do que em ações pontuais como editais e premiações.

Não acho que isso signifique que sejamos contra os editais. Muito pelo contrário. Apoiamos os editais e queremos ser ouvidos sobre a sua formulação. Mas queremos mais que isso. Não esperamos que o MinC ou a Secretaria do Audiovisual "cuide" dos roteiristas. Queremos que o cinema brasileiro evolua como indústria e sabemos que isso não irá acontecer se a nossa atividade não evoluir junto.

Quanto à relação entre a AC e a AR, acho que cada entidade, fiel à sua própria natureza, tem uma contribuição a dar, e que o diálogo deve continuar, respeitadas as diferenças.

Posted on Terça-feira, Março 10, 2009 at 05:07PM by Registered CommenterDavid França Mendes | CommentsPost a Comment | EmailEmail

Roteirista no Brasil é iniciante para sempre

A estrutura do cinema e da TV independente no Brasil obriga os roteiristas a serem para sempre iniciantes, e o edital lançado pelo Ministério da Cultura para desenvolvimento de roteiro, da forma como está, não chega a piorar a situação. É apenas um triste sintoma de que ela está aí para ficar.

O edital sofreu duras críticas do presidente da Associação de Roteiristas (AR), Marcílio Moraes, que chegou a propor, em depoimento a O Globo, um boicote dos profissionais do roteiro ao edital. Faço parte da Autores de Cinema, uma outra associação de roteiristas, que não se alinha com essa posição. Em todo caso, o presente texto é minha visão pessoal, e não a de qualquer entidade. O que seriamente me preocupa é que ao se radicalizar posições se perca uma chance rara para o entendimento.

Os roteiristas no Brasil são para sempre iniciantes. Por que? Porque muito pouco se consolida numa carreira de roteirista no Brasil, mesmo que você esteja sempre trabalhando e seja considerado um bom profissional, e não mais uma promessa, simplesmente porque a ponta do processo em que o roteiro está inserido não faz parte do processo produtivo. Em outras palavras, para ajudar os roteiristas é preciso profissionalizar... os produtores.

Roteiro dá em árvore? cai do céu, como o asteróide que quase nos acertou outro dia? não. Alguém pesquisa, elabora, inventa, estrutura e escreve um roteiro. É um trabalho longo, detalhista e que exige dedicação. Não é hobby de amadores e tampouco veículo para expressão de angústias pessoais. É trabalho, repito. Mas quem estuda a dinâmica da produção audiovisual brasileira há de pensar o contrário. Para financiar um projeto, via leis e editais, é preciso ter um roteiro pronto e bom. E de onde sai o dinheiro para pagar o roteirista? de lugar nenhum. Os produtores dispõem de acesso a raríssimos meios de financiamento de roteiro. O roteirista então ganha pouco. É sempre tratado como um iniciante.

O novo edital do MinC determina que o mesmo estado da federação não pode ter mais de dois roteiros contemplados e que quatro dos premiados têm que ser estreantes. Ao defender a proposta, o Secretário do Audiovisual diz que a intenção é promover condições para que roteiristas das outras regiões possam se profissionalizar. Ninguém é contra isso. É lógico que é interessante que se profissionalize roteiristas em todo o país. Caramba, é essencial que se profissionalize o audiovisual em todo o país, não é? Mas será que é esse o caminho?

Entre os profissionais, esse tipo de prêmio tem um apelido: "bolsa roteirista". Porque sendo desvinculada de possibilidades reais de realização de um produto, acabam sendo um bem-vindo tapa-buraco nas combalidas finanças dos nossos escribas. Isso pode ser bom para o indivíduo roteirista que ganha, e sendo assim é melhor que nada para esta que é a mais desvalorizada categoria do nosso cinema, mas será que é bom para promover a longo prazo a tal profissionalização? Em 2003, eu ganhei esse mesmo prêmio com um projeto chamado "Saara". Recebi o prêmio, escrevi o roteiro. E desde então, sempre que há uma chance, tento colocá-lo em jogo, apresentá-lo a um produtor, fazê-lo acontecer. Ainda não consegui, mesmo eu sendo um desses profissionais estabelecidos: sediado na região sudeste, com acesso a todos os produtores do Rio e de São Paulo, cujos nomes e telefones eu conheço e a quem encontro com frequência. Pois se é assim para um profissional, como será para o amador, iniciante, afastado dos grandes centros e sem noção do modus operandi dos produtores?

Não seria mais proveitoso investir por um lado no acesso a meios de financiamento de roteiro pelos produtores, por outro na valorização dos profissionais e, por fim, na formação, através de cursos e intercâmbio, de roteiristas e produtores no interior, para que eles possam ser competitivos de verdade? Bem formados, preparados, e existindo meios de financiamento - que aí sim podem ser regionalizados - eles entram no jogo de igual para igual.

Eu já dei oficinas de roteiro em Brasília, Campo Grande, Tiradentes, além de Rio e São Paulo. Outros roteiristas, como o Di Moretti, entre outros, têm estado no Ceará, em Pernambuco, no Paraná, na Bahia. Em todos esses lugares, encontramos gente muito a fim de aprender. E cheios de histórias para contar. Histórias ótimas, originais. Mas, sinceramente, se é para ficar no papel, seria muito melhor que eles escrevessem literatura. Prêmios como esse do MinC podem criar uma situação de falsa corrida do ouro ao final da qual só se encontra amadorismo e frustração.

Além do mais, há a confidencialidade dos concorrentes perante a comissão de seleção, determinada pela participação anônima, uma medida que garante que o que vai sobressair é a história escrita e não o nome de quem assina. Dessa forma, uma boa história, vinda do Rio, de Palmas ou de São Luis, tem tanta chance quanto qualquer outra. Quem me diz que, baseando a escolha apenas na qualidade do que está escrito, não teríamos por exemplo três projetos de Goiás contemplados? Pois é, pelo regulamento, isso não é possível.
O próprio MinC lançou um outro edital, voltado para a produção de séries dramatúrgicas para a TV pública, que é primoroso em sua construção, passo-a-passo, de uma relação profissional. Entre outros acertos, esse edital, o FICTV, inaugura um reconhecimento inédito dos direitos dos autores ao reservar 15% dos royalties das séries para os roteiristas. Perfeito, justo, profissional, fomentador de uma mentalidade industrial, esse edital não deixa de permitir o acesso a produtores e criadores de todas as regiões. Como então o mesmo ministério que produz um edital como o FICTV lança esse outro?

Eu acredito na intenção do ministério da cultura de apoiar a construção de um audiovisual moderno, democrático e forte no Brasil. Tenho certeza da boa intenção com que o edital foi feito e lançado. Talvez o que falte seja apenas entender mais profundamente a dinânica da atividade, tomar uma firme posição política quanto ao que deve ser o lugar do roteirista no processo de produção audiovisual. Parte da culpa talvez seja nossa. Não são muitos os roteiristas que entendem que apenas uma real parceria com os produtores, com produtores modernos e profissionais, vai criar um audiovisual em que não sejamos para sempre iniciantes.

Respeito muito o Silvio da Rin, nosso Secretário do Audiovisual. Silvio é um cara de cinema. Diretor de documentários, foi (é!) também um dos grandes técnicos de som do nosso cinema, desde os anos 70. Pois é ao Silvio técnico de som que eu me dirijo, para que ele entenda que, assim como todos os técnicos, aos quais a sobrevivência é negada se não há produtores estabelecidos e uma continuidade de trabalho, os roteiristas também precisam de produção. Nós não somos diletantes e nem queremos ser iniciantes para sempre. Nós somos técnicos como você, Silvio. Como os técnicos reagiriam ao um edital que determinasse que 40% dos filmes teriam que ter fotógrafos estreantes, montadores estreantes, atores estreantes?

Posted on Quarta-feira, Março 4, 2009 at 07:51PM by Registered CommenterDavid França Mendes | Comments4 Comments | EmailEmail

Darjeeling

Revi ontem, meio por acidente, o Viagem a Darjeeling. O filme dirigido por Wes Anderson e escrito por Anderson, Roman Coppola e o ator Jason Schwartzman, já tinha me agradado da primeira vez, no cinema. Ontem, revendo na TV, gostei mais ainda.

Hoje em dia, qualquer um assina "um filme de", mas pouca gente está à altura dessa pretensão autoral. Anderson está.

Posted on Domingo, Fevereiro 22, 2009 at 02:08PM by Registered CommenterDavid França Mendes | CommentsPost a Comment | EmailEmail

Um doce de livraria


De um tempo pra cá, tenho substituído a Amazon, na qual compro desde quando a livraria virtual era apenas um livraria, quando foi inaugurada em 1995, pela Better World Books. Adventures in the Screen Trade, do roteirista William Goldman, é o terceiro livro que encomendo com eles (falarei do livro depois que tiver lido, mas pelo que conheço de Goldman, só pode ser ótimo).

E o que a Better Books tem pra me fazer largar a Amazon? Umas coisinhas. Primeiro, ela é um ONG que investe seus lucros em programas de alfabetização no Terceiro Mundo. Segundo, ela tem um programa de recuperação de livros abandonados, que ou são revendidos/doados ou, se estão ruins demais para ler, reciclados. Terceiro, e não menos importante: seus livros, tanto novos quanto usados, têm preços mais baixos e o frete é baratíssimo, quatro dólares por livro para qualquer lugar do mundo (e para dentro dos Estados Unidos é de graça).

Acabo de receber o livro do Goldman, numa embalagem reciclada bem bacana. Vou tirar o livro do pacote encontro, para minha imensa surpresa... um chocolate! É ou não é um doce de iivraria?

Posted on Quinta-feira, Fevereiro 19, 2009 at 11:59PM by Registered CommenterDavid França Mendes in | CommentsPost a Comment | EmailEmail

Ainda o Marías

Poucos dias atrás publiquei um comentário sobre o livro de Javiér Marías "Coração Tão Branco", que tinha acabado de ler. Não era uma crítica ou resenha séria, apenas um texto escrito no calor do entusiasmo. E não é que neste fim-de-semana saiu no Estadão um bom artigo sobre o escritor? e o melhor, escrito por um cara que eu conheço e que tive o prazer de ter como aluno do meu recém-terminado curso de diálogos no roteiro, o Vinícius Jatobá. Vinícius escreveu uma bela análise da obra de Marías, contextualizando-a inteligentemente no panorama da literatura de hoje ao lado de autores como McEwan e o nosso Milton Hatoum.

Posted on Segunda-feira, Fevereiro 16, 2009 at 08:01AM by Registered CommenterDavid França Mendes | CommentsPost a Comment | EmailEmail

Romance, breve nas livrarias e nas telas

O livro de Sérgio Sant'Anna que inspirou meu filme Um Romance de Geração está esgotado desde o início dos anos 80 e é uma preciosidade de sebo. Muito em breve, não será mais. A Companhia das Letras, editora que publica atualmente os livros do Sérgio, relança o "Romance" agora em abril. Bem em tempo para o lançamento do filme, que está programado para maio pelo Grupo Estação.

Posted on Segunda-feira, Fevereiro 16, 2009 at 07:45AM by Registered CommenterDavid França Mendes | CommentsPost a Comment | EmailEmail

Coração Tão Branco, de Javier Marías: elenco de gestos repetidos

Peguei quase por acaso, na livraria, a edição pocket de Coração Tão Branco, romance de Javier Marías. Nunca tinha lido nada dele, mas Bolaño fala bem do cara, gostei do que li, da primeira página, e o livro de bolso era barato. Comprei. Li com excepcional avidez até mesmo para os meus padrões ávidos de leitor.

Não vou tentar fazer crítica ou resenha do livro. Apenas alguns comentários de leitor que apreciou a leitura. Marías escreve um romance que se lê, de certa forma, um pouco também como uma coletânea de contos interligados. Há um grupo pequeno de personagens que se mantém, e há a voz do narrador e protagonista, que nos acompanha, que conta os contos dos quais, quase todos, é também participantes. Há também uma história central, que se plana no início e que só se resolve pouquíssimas páginas antes do final: a da jovem que se mata poucos dias depois da sua lua-de-mel, e que é tia do narrador.

Os contos (que sou eu que chamo assim, desmembrando a posteriori o que é uma leitura coesa e única, e pode ser que ninguém mais interprete assim) são interligados por personagens em comum, e por uma reincidência de gestos, palavras, atitudes. Isso é normal, comum, na literatura, no cinema: são as pequenas ou não tão pequenas repetições que arredondam uma narrativa, estabelecem uma atmosfera.

Mas no livro de Javier Marías o curioso é que o narrador chama atenção para essas repetições muitas vezes, e especialmente no final, quando chega quase a inventariá-las. Quando li aquilo cheguei a me perguntar: será que isso aqui é péssimo? sim, porque se alguém me contasse de um autor que faz o seu personagem ficar sublinhando os efeitos que ele, autor, planta na história, eu provavelmente acharia um lixo. Pois é, mas a minha conclusão foi a de que não, não era ruim aquilo, não. Era, é, coerente com o fato de que o tema do livro, afinal, são essas repetições.

Como assim, o tema são as repetições? todas as histórias, e a história afinal que é o centro do livro, tratam de casais recentes diante da perspectiva do futuro - o futuro abstrato, como diz o narrador, e o presente concreto -, e o que é, afinal, o futuro de um casal, qualquer casal, se não a consolidação de um elenco de gestos repetidos?

Posted on Sexta-feira, Fevereiro 13, 2009 at 05:13PM by Registered CommenterDavid França Mendes in | Comments2 Comments | EmailEmail

Trampolina

Sabe quando você vê que alguém tem uma boa idéia, simples e bacana, vai e realiza? o Trampolina é uma idéia dessas. Feito por Gabriela Almeida, Matheus Rocha e Rafael Cavalcanti, Trampolina é um blog com uma proposta muito simples: a cada duas semanas, publicam duas fotos (feitas pelo Matheus) a partir das quais a Gabriela escreve um mini conto e o Rafael compõe uma trilha. E você lê escutando a trilha e vendo as fotos. Como se um roteiro virasse filme na hora, diante dos nossos olhos, de forma simples, bacana.

Posted on Quinta-feira, Fevereiro 12, 2009 at 11:30PM by Registered CommenterDavid França Mendes | CommentsPost a Comment | EmailEmail

Sérgio Sant'Anna e David F. Mendes falam de Cinema e Literatura no Odeon

A Livraria Odeon, localizada no segundo andar desse templo do cinema no Centro do Rio, está promovendo eventos todos os sábados nesse verão. O deste sábado, 7/2/2009, tem lançamento de revista Plano B, leituras variadas e, às 17h, debate com este que vos fala e Sërgio Sant'Anna sobre as dores e (eventuais) delícias da relação cinema e literatura. O bar vai estar aberto (ou pelo menos eu e Sérgio contamos com isso).

Posted on Sexta-feira, Fevereiro 6, 2009 at 02:03PM by Registered CommenterDavid França Mendes | CommentsPost a Comment | EmailEmail

Curso de Diálogos

Já está com inscrições abertas o curso sobre diálogos que vou dar em janeiro.

Escrever diálogos e descrever ações é uma parte fundamental do trabalho do roteirista em cinema e TV. Este curso, essencialmente prático, apresenta as principais técnicas de redação do roteiro e as aplica em exercícios intensivos. Além da prática e do aconselhamento técnico, os alunos irão analisar diálogos em filmes brasileiros e internacionais, contemporâneos e clássicos, além de textos de teatro e literatura. Noções de ritmo e caracterização de personagem serão apresentadas. O objetivo é aprender a identificar e produzir bons diálogos e descrições.

A partir de 12 de janeiro

Segundas-feiras das 19h30 às 22h
Carga horária: 5 aulas
Custo: R$350 com opção de parcelamento em 2x (10% de desconto a vista)
Aceita-se cartão de crédito VISA ou VISA ELETRON
Local: Grupo Estação - Rua Voluntários da Pátria, 53
Botafogo, Rio de Janeiro

Posted on Domingo, Dezembro 21, 2008 at 11:48PM by Registered CommenterDavid França Mendes | CommentsPost a Comment | EmailEmail