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Tarkovski e Watchmen
Você sabe por que uns filmes são vistos e outros não? Preste atenção no situação que se segue, e você entenderá.
Outro dia um amigo lançou no Twitter uma reclamação. Ele tinha acabado de ver Watchmen e, decepcionado, lançou uma pergunta em tom de protesto: "por que Hollywood continua estragando um clássico depois do outro, em vez de produzir coisas originais". Eu, que sou implicante pra xuxu, não deixei passar e lancei minha resposta, igualmente pelo Twitter: "porque tem gente que paga ingresso para ver".
O amigo absorveu o golpe com o fair play que lhe é peculiar. Mas eu, que sou um implicante culpado, lembrei que há poucos dias ele buscava um filme do Tarkovski para alugar. Perguntei, numa de quem depois de morder assopra, se ele tinha conseguido o filme. "Não", respondeu, chateado, "só deu pra pegar o remake do Solaris com o George Clooney".
A conversa parou por aí. Mas hoje me voltou à cabeça esse papo. Porque, devidamente destrinchado, ele explica como funciona o cinema, porque os filmes são vistos e porque os filmes não são vistos. Meu amigo queria ver o Tarkovski, mas viu o Clooney simplesmente porque era o Clooney que era possível encontrar. Nenhuma das videolocadoras a que ele tinha acesso - e o amigo mora em São Paulo - tinha Tarkovski.
Ninguém quer ver Tarkovski, é por isso que não tem em locadora nenhuma. Será? será que meu amigo é um ser assim tão exótico? não me parece, afinal, como fizeram nos últimos dias outros milhões de habitantes desse nosso pequeno planeta azul, ele fora ver Watchmen. Trata-se, portanto, de um ser-humano normal e não de uma aberração como eu, que nem sequer tinha ouvido falar nos tais super-heróis de HQ até outro dia.
Deve haver outras pessoas por aí querendo ver Tarkovski, sim. E se elas são poucas, quem me diz que não estamos diante de uma situação de o-ovo-e-a-galinha? O paradoxo do Tostines? será que não haveria mais gente querendo ver filmes diferentes se houvesse mais filmes diferentes para a gente ver?
E se esses filmes que todo mundo vê, como Watchmen, fossem lançados em dois ou três cinemas em cada cidade? o que aconteceria? será que as pessoas ficariam em filas monstruosas para vê-los, insisitindo dia após dia, semana após semana, até gerar, nessas poucas salas, as cifras astronônimas que esses filmes geram? ou acabariam, com o passar das semanas, ouvindo o boca-a-boca de que o filme nem é essa Coca Cola toda e desistindo? ou nem isso, simplesmente se esqueceriam dele, distraídos por outras estréias?
Essa questão, para mim, não tem nada de acadêmica. Vou lançar meu pequeno filme independente, Um Romance de Geração, daqui a poucos meses. Distribuidora pequena (a Filmes do Estação), sem atores famosos e verba quase nula para divulgação, não espero ver o filme entre os top 10 da semana. Mas gostaria muito que as pessoas que podem gostar dele o vissem. No festival do Rio, uma platéia de 600 pessoas viu o filme e se divertiu. Não vou dizer que todo mundo gostou, isso não existe, mas houve risos o tempo todo, houve o calor de uma platéia que estava presente. Isso significa que o filme pode interessar pelo menos a algum público. Mas como o público vai saber? É como lançar um refrigerante que você só encontra em um restaurante: o acaso de alguém prová-lo é mais determinante das suas possibilidades comerciais do que o produto em si.
É claro que não se pode reduzir a complexa questão do sucesso comercial de um filme à distribuição. Mas tirá-la da equação por completo, como tantas vezes fazem jornalistas, críticos e até colegas cineastas, não dá, não é real, não é justo e, principalmente, não é produtivo se queremos que algo mude.
Há muitos filmes por aí que poderiam encontrar um público. O seu público, feito sob medida para rir do seu humor, se emocionar com os seus personagens, se interessar pela sua trama. Esse público e esses filmes são como caras-metades que não tem a sorte de serem apresentadas. Não estão indo às mesmas festas, e vivem cada um para um lado na mais perfeita solidão: uns filmes caindo no esquecimento, uns espectadores forçados a ver o Solaris que não era o que desejavam ver.


